sábado, 31 de janeiro de 2004

Sucesso

Foi um sucesso a Concentração/Manifestação pela legalização dos imigrantes na Europa, ocorrida hoje, no Largo Camões pelas 15.00.
Estiveram representadas mais de 40 associações.
Nunca tinha se visto tanta unanimidade em torno de um tema tão importante. Isto, apesar de haver um grande esforço do governo português em dividir a comunidade imigrante.
Lá se demonstrou como é bom andarmos todos a puxar para o mesmo lado.
Vou publicar aqui a nota à comunicação social que me poupa de explicar tudo e foi muito bem feita e trabalhada.

NOTA DE IMPRENSA
CONCENTRAÇÃO PELA LEGALIZAÇÃO DOS IMIGRANTES

As organizações abaixo assinadas (Associações de Imigrantes, de Solidariedade, Sindicatos, Organizações Religiosas entre outras) estão preocupadas com o ambiente de rejeição crescente dos imigrantes em Portugal. Responsabilizamos algumas forças políticas e Comunicação Social por esta situação que, contra as indicações de estudos científicos sérios, continuam a ligar indevidamente a imigração com o aumento do desemprego e da criminalidade.
Preocupa-nos ainda o carácter excessivamente securitário da legislação produzida pelo governo, em particular, o poder conferido ao Serviço de Estrangeiros e Fronteiras (SEF) e a inoperância da Inspecção Geral do Trabalho (IGT/IDCT) para lidar com o fenómeno migratório.
As medidas anunciadas no dia 19 de Janeiro pelo governo, no âmbito da regulamentação do DL 34/03 deixam-nos apreensivos. Porém, são um incentivo para que os imigrantes, as entidades que os apoiam e todos os cidadãos portugueses que assim o entenderem, se mobilizem e lutem por uma integração dos imigrantes com direitos, deveres e cidadania plena.
Os imigrantes são fundamentais para a sociedade portuguesa, bem como para os outros países da U.E.. O seu contributo para o enriquecimento cultural, económico, social e demográfico de Portugal é demonstrado quer na vida das empresas, bairros, escolas e comunidades, quer em estudos científicos de várias universidades nacionais e estrangeiras. A Dignidade dos homens e mulheres imigrantes e suas familias, tal como de todos os seres humanos, é fundamental ser efectivada no quotidiano através da sua legalização e no respeito pelos direitos laborais, sociais e de cidadania, entre muitos outros.
Por isso tudo, reivindicamos:
" Legalização dos imigrantes que vivem e trabalham em Portugal até à data da publicação da lei;
" A igualdade de condições de trabalho, tratamento e de direitos sociais;
" Protecção para as crianças filhas de imigrantes, independente da sua situação legal;
" Assistência médica para todos os imigrantes, regularizados ou não;
" Medidas de protecção legal, de apoio psicológico e estruturas de reinserção social para os imigrantes, sobretudo mulheres, vítimas de tráfico humano para fins laborais ou exploração sexual;
" Criação de mecanismos que impeçam que alguém seja despejado da sua habitação, sem que lhe seja proposto uma alternativa condigna;
" Travar a onda crescente de xenofobia face à comunidade cigana através da legalização, entre outras medidas, do estatuto de mediadores sócio-culturais e venda ambulante;
" Tornar expedito o processo de reagrupamento familiar para todos os imigrantes com estadia legal em Portugal;
" Simplificar e agilizar o processo de legalização e de emissão de vistos para que os prazos estabelecidos para cada um dos órgãos do Estados (SEF - IGT/IDICT - IEFP - Consulados, etc.) sejam cumpridos;
" Desburocratização do processo de regularização dos imigrantes brasileiros, no âmbito do Acordo de 11 de Julho de 2003, que até ao momento só concedeu cerca de 100 Vistos de Trabalho num universo de 31.500 trabalhadores, devido às exigências excessivas impostas pelo Estado português;
" Viabilizar o direito à cidadania política;
" Ratificação por parte de Portugal da Convenção Internacional sobre a "Protecção dos Direitos dos Trabalhadores Migrantes e seus Familiares" da ONU, em vigor desde 1 de Julho de 2003.
Por tudo isso, convocamos uma CONCENTRAÇÃO PARA O DIA 31 DE JANEIRO, ÀS 15 HORAS NO LARGO LUIS DE CAMÕES (Lisboa), em simultâneo com outras manifestações levadas a efeito por toda a Europa nesse dia em que se assinala a "Jornada Europeia pela Legalização de todos os Imigrantes", no âmbito do protesto convocado pela Assembleia de Movimentos Sociais do Fórum Social Europeu realizado em Paris.

terça-feira, 27 de janeiro de 2004

Queria ver o que vês

When I Look At The World

When you look at the world
What is it that you see?
People find all kinds of things
That bring them to their knees
I see an expression
So clear and so true
That it changes the atmosphere
When you walk into the room

So I try to be like you
Try to feel it like you do
But without you it's no use
I can't see what you see
When I look at the world

When the night is someone elses
And you're trying to get some sleep
When your thoughts are too expensive
To ever want to keep
When there's all kinds of chaos
And everyone is walking lame
You don't even blink now, do you
Or even look away

So I try to be like you
Try to feel it like you do
But without you it's no use
I can't see what you see
When I look at the world

I can't wait any longer
I can't wait till I'm stronger
Can't wait any longer
To see what you see
When I look at the world

I'm in the waiting room
Can't see for the smoke
I think of you and your holy book
While the rest of us choke

Tell me, tell me, what do you see?
Tell me, tell me, what’s wrong with me

Música: U2
Álbum: All that you can't leave behind

segunda-feira, 26 de janeiro de 2004

Miklos

Jogo nos descontos.
Cartão amarelo.
Sorriso.
O jogador cai.
Nunca mais se levanta.
E o Euro e os estádios de repente ficaram tão insignificantes.

quinta-feira, 15 de janeiro de 2004

Este gajo é maluco

Pobre de nossa curta, condensada e única vida se não tirarmos dela só coisas boas.
Julgo que a nossa tarefa está facilitada.
A nós todos cabe a simples e singular tarefa de sermos redutores e restritivos.
Com a facilidade de ver tudo só por uma perspectiva.
Com o conforto de só guardar as fotografias que nos interessam.
Enfim, apenas defendendo uma parte no grande tribunal de nossos corações: a melhor.

quarta-feira, 14 de janeiro de 2004

Ao trabalho

Depois dos excessos dos feriados de Natal e Ano Novo, o trabalho chega, para nos fazer descansar.
Deve ser para isso que as férias servem.
Para ver que podemos nos cansar ainda mais do que em tempo de trabalho!

sábado, 10 de janeiro de 2004

Skap

quando você pinta tinta nessa tela cinza
quando você passa doce dessa fruta passa
quando você entra mãe-benta amor aos pedaços
quando você chega nega fulô boneca de piche
flor de azeviche

você me faz parecer menos só
menos sozinho
você me faz parecer menos pó
menos pozinho

quando você fala bala no velho oeste
quando você dança lança flecha estilingue
quando você olha molha meu olho que nao crê
quando você pousa mariposa morna lisa
o sangue encharca a camisa

quando você diz o que ninguém diz
quando você quer o que ninguém quis
quando você usa lousa para que eu possa ser giz
quando você arde alardeia sua teia cheia de ardis
quando você faz a minha carne triste quase feliz

Letra e música: Zeca Baleiro

sexta-feira, 2 de janeiro de 2004

Novos tempos

Navegar Impreciso

A Pátria - Avó se volta sem memória
de todos estes anos de amor
Um amor sem beijo e sem resposta
responde agora a uma nova sedução
Teus Joaquins, teus açougueiros, filhos de uma mãe - avó
os bons e os maus tratos que eu te dei
Sucumbem com tamancos, camisetas sob a lei
que ouviste a nova - velha Europa te ditar
E voltas tuas costas para mim
voltas tuas costas para o mar
Prás tuas conquistas, pro teu navegar
prá tua cruz de malta sobre o azul
Um dia foste forte e generosa
mas hoje tua memória não tem sul
Não é porque já não se usa navegar
e nem é por tua idade, eterna sois
Mas nunca mais a nossa velha intimidade
o sabor inigualável dos teus pães

Letra: Herbert Vianna
Música: Paralamas do Sucesso

quinta-feira, 25 de dezembro de 2003

Ficção

No disco do Fausto, "A Ópera Mágica do Cantor Maldito", gravado em 2003, vem a seguinte advertência:
"Este disco é pura ficção. Qualquer coincidência com a realidade não é mera coincidência. Logo, é pura ficção."

sexta-feira, 12 de dezembro de 2003

O Peru e outras aves

Os meus vizinhos de cima estão fazendo uma festa de arromba.
Que maravilha! Devem ter uma boa razão para festejar. Eu tenho muitas razões para festejos, mas não irei enunciá-las neste blog.
Eu sei que ele anda sedento de assuntos felizes.
Depois do 11 de Setembro, parece que toda a gente anda com vontade de ter assuntos alegres. Imagino os gajos de Guantanamo.
É por isso que o Bush, no meio de um Iraque que respira destruição, descalabro, descontentamento e outros "des", surge com um peru no meio dos tropas americanos, que estão esfomeados de paz.
Se alguns estivessem contentes pelo peru (pelo Bush, não devia ser de certeza), logo a felicidade lhes terá passado, pois descobriram que o peru era de plástico.
De plástico, como é toda a realidade daquele país. No fim de contas, é de plástico o controle que os Estados Unidos tem sobre aquele ponto do globo. Admira-me (não me admira) como é que o Bush tem a lata de deixar isto sair cá para fora. Quando eu soube deste detalhe, a primeira coisa na qual pensei foi nos ídolos com pés de barro. E nas mentiras.
Mas estamos a falar de coisas com piada.
Outra coisa engraçada, é que parece que "O Santana", qual Don Juan, pretende conquistar Portugal. E é vê-lo com grandes intervenções, a opinar sobre a forma de estar do Presidente da República. "Já reparou que serei eu o próximo Presidente?". E todos nós andamos a rir de nervosismo com isso. E dizemos nós: "Já repararam, lá vem o Santana... Estamos lixados...".
Afinal, até acho que isto não tem muita graça. Mas tem. Aliás, deve ser uma espécie de tragicomédia, e estamos todos num acto de profunda risota. Mas virá o drama, de certeza.
A risota é extensível ao mundo todo. Estamos numa fase de profunda ironia. É em Itália o Berlusconi. É o Blair, do Labour! Esta é a mais elaborada de todas! Eh eh eh eh. É o Bush, que, como me disseram outro dia, supera todas as expectativas! É ali na Espanha o terrorismo de estado do Aznar! É a Áustria, é a Suiça.
Agora só falta o Brasil, com o Lula, contar a mais terrível das anedotas.
Isto me parece incompleto, porém por apreço a um (!) leitor de meu blog, não vou meter uma frase no final, como conclusão.

quarta-feira, 10 de dezembro de 2003

O Céu e o Mar

Eu acho esta letra muito bonita e a música também.
Queria saber escrever assim.

O Céu e o Mar

Seu olhar era o mar
De águas tão escuras
Onde o meu espelhado
Era só procura

O sol brilhava dourado
E o mar, de nuvens vestido
Chorava o céu tempestades
Ao não se ver refletido

Para o mar, o céu era tudo
Mas um céu, quantos mares teria?
Por ele esperaria,
A cada volta do mundo?

Para o céu, só um mar existia
Apesar de outros mares cruzar
Só nele se via.

Márcio Faraco
Álbum: Interior
www.marciofaraco.com

terça-feira, 2 de dezembro de 2003

Violeiro Andante

Ando tão calado.
Mas não é por mal, é por bem.
Quando andamos calados, ouvimos mais coisas.
Eu, por exemplo, tive o privilégio de ouvir Fernando Deghi, sexta feira, dia 28 de Novembro, na Casa do Brasil de Lisboa.
O Fernando Deghi é um "violeiro", do Brasil, com um repertório muito bom. Toca lindas músicas no seu disco "Violeiro Andante". É um disco muito bonito.
Ele tem um site na net e tudo: www.fernandodeghi.hpg.ig.com.br. E o e-mail dele é deghi@terra.com.br e violeiroandante@terra.com.br.
O site tem montes de excelentes comentários à música deste guitarrista, o que me inibe de falar muito sobre este assunto.
Contudo, posso dizer é que o cara é bom demais naquilo que faz.

sexta-feira, 21 de novembro de 2003

A Diversão dos Palermas

A diversão dos palermas: pegar na rapaziada recém chegada, mandar-lhes ovos, insultá-los, dizer que eles não pertencem ao sítio aonde chegaram, que são burros, e faze-los passar por situações ridículas.
Ai, ai.
Será assim tão bom? Tão fortificador do espírito?
Será que integra? Mas a integração tem de ser feita com medo, subordinação e hierarquia?
Vê o teu lugar! Não é esta a mensagem?
Acho que já sabem do que estou a falar. Isso mesmo, das praxes! A prática mais ignóbil dos estudantes universitários!
Eu sei que não se tratam de todos os estudantes universitários, mas todos temos culpa quando toleramos a praxe.
Eu fui praxado, como quase toda a gente. Para mim não custou muito, apesar do meu livro de Direito Romano ter ficado com um pingo amarelo, sujo com ovo. Não achei piada estar sentado à espera que um ritual absurdo terminasse, a pensar que ainda iam sujar todos os meus livros. Foi muito integrador estar na sala, vendo a hora que levar-me-iam para o palco, para fazerem-me passar por idiota. Tivemos de ouvir também vários discursos, preparados por escrito (perderam tempo com isso!), a nos dizerem todos os problemas que traríamos para a Universidade e que éramos uma bestas.
Agora, o leitor está a pensar: "Este rapaz queixa-se, mas nem lhe aconteceu nada de especial...".
Isto é que e grave! As praxes, de qualquer tipo, não deviam existir! Qualquer lesão à nossa integridade física ou moral nunca podem ser admitidas.
E para que fomentar esta ideia da praxe? Afinal, o que se ganha com a praxe?
Na minha praxe ainda quiseram tirar-me os sapatos, (!) que ser-me-iam vendidos (!) mais tarde (ainda que a um preço simbólico). Na altura, frisei que isto já era brincar demais e mantive-os em meus pés.
Alguma vez na praxe se fazem amigos? Eu não costumo conversar com pessoas que me mandam ovos na cabeça e molham minha cabeça com misturas contendo vinagre, para me pôr a cheirar mal.
Bem, mas como não acho graça nenhuma a estas coisas, tive alegrias. Não praxar, não andar a programar maneiras de ridicularizar outros estudantes, são exemplos disso.
Aquelas comissões de praxe! Que absurdo! Por sorte, a minha Universidade não tinha aqueles tontos, os "Dux", que são uns indivíduos que são os "chefes" da hierarquia. E tem umas capas!.. Minha nossa! São tão poderosos!
Tão bom como terminar com este exagero de propinas, tão altas, seria terminar com as praxes de uma vez.
Fiquei contente de ler, no Diário de Notícias, que há um conjunto de personalidades que, ao subscreverem um documento, o Manifesto Anti- Praxe, estão dando apoio à luta contra este abuso.
É necessário também enaltecer o trabalho do M.A.T.A. (Movimento Anti- Tradição Académica, de Lisboa), dos Antípodas (Movimento Anti- Praxe, do Porto) e de todos os movimentos ou indivíduos que se oponham às praxes e tudo façam para boicotá-las ou extinguí-las.
Seria tão bom evoluirmos, nos libertando destas práticas perfeitamente desajustadas com as Universidades, que são lugares que deviam servir para o aperfeiçoamento dos cidadãos.

sexta-feira, 14 de novembro de 2003

Quero a nona sinfonia

Hoje estou mesmo com vontade de escrever.
E não é só porque às 9.00 estarei no Tribunal de Instrução Criminal, escalado.
Queria ver se me safava com um poemazito, mas o "The Tyger" do William Blake, não seria o suficiente.
Então vou meter aqui umas palavritas.
O Tribunal de Instrução Criminal faz pena. Ou não faz pena, porque lá só se aplicam medidas de coacção ou se fazem debates instrutórios.
Mas faz pena, assim como fazem pena as varas criminais e os juízos criminais.
Outro dia estive nas varas. Fazia tempo que não ia lá. Já me tinha esquecido.
Fiquei triste.
Já me tinha esquecido que as pessoas metem-se em problemas ferozes na vida. E a vida lhes mete em ferozes problemas. Ainda por cima, tudo começa com ninharias, que depois viram grandes bolas de neve e levam tudo atrás.
Aquela teoria, de que o lugar aonde crescemos tem influência na maneira como nos comportamos perante os outros, é mesmo verdade. As varas estão cheias de verdades e brigas e pancadarias e acertos de contas.
E violências e tristezas, para todos os lados.
Existe a utopia e o irrealismo dos que pensam as leis.
Existe a dureza e a realidade para quem vê a lei lhe ser aplicada.
A quem a lei se aplica?
Nunca vou dizer que não acredito na Justiça. Mas todos sabemos que ainda falta muito para se começar a fazê-la, sem demagogias, a todos.
É, a música é diferente consoante o dançarino.

quinta-feira, 6 de novembro de 2003

Eternidade

"The clock indicates the moment - but what does eternity indicate?"

Walt Whitman

quarta-feira, 29 de outubro de 2003

Marco Aurélio já sabia

Há quase dois mil anos, Marco Aurélio já sabia. Porém, a lição não se aprende. Aprenderemos um dia?
Apetece mesmo me repetir e dizer: "Temos muito trabalho pela frente!", tal como eu já disse na mensagem antecedente.

"Começa o dia dizendo a ti próprio, enfrentarei o intrometido, o ingrato, o arrogante, o hipócrita, o invejoso, o insociável... não me deixarei afectar por qualquer deles, pois ninguém me pode impor o que é feio, nem zangar com o meu próximo, nem odiá-lo; pois existimos para colaborar, como os pés, as mãos, as pálpebras, as filas de dentes superiores e inferiores."

Marco Aurélio (121-180 d.c.), Imperador Romano e filósofo estóico, in Meditações

sexta-feira, 24 de outubro de 2003

Epitáfio

Não é o nosso, felizmente.
Mas este epitáfio deverá ser perspectivado como a nossa certidão de nascimento.
A partir de hoje, vamos fazer tudo o que esta pessoa deixou de fazer.
Temos muito trabalho pela frente.

Epitáfio

Devia ter amado mais, ter chorado mais
Ter visto o sol nascer
Devia ter arriscado mais e até errado mais
Ter feito o que eu queria fazer
Queria ter aceitado as pessoas como elas são
Cada um sabe a alegria e a dor que traz no coração

O acaso vai me proteger
Enquanto eu andar distraído
O acaso vai me proteger
Enquanto eu andar

Devia ter complicado menos, trabalhado menos
Ter visto o sol se pôr
Devia ter me importado menos com problemas pequenos
Ter morrido de amor
Queria ter aceitado a vida como ela é
A cada um cabe alegrias e a tristeza que vier

O acaso vai me proteger
Enquanto eu andar distraído
O acaso vai me proteger
Enquanto eu andar

Letra: Sérgio Britto
Música: Titãs
Álbum: A melhor banda de todos os tempos da última semana

terça-feira, 21 de outubro de 2003

Joe e Steve

As minhas últimas semanas como universitário foram terríveis.
Era setembro e eu tinha de fazer Processo Penal e Direito Internacional Privado, para encerrar este capítulo de minha vida.
Sentia um stress sem precedentes. Não tinha vontade nenhuma de estudar e achava que já estava tudo feito. Sentava no meu quarto e tinha imensas dificuldades de me concentrar. Tudo me incomodava. Aliás, fiz questão de pensar para comigo: "nunca vais ter nostalgia dos tempos da Universidade. Vais te lembrar sempre destas últimas semanas".
O que fazer para me concentrar? E ainda mais, quando a Biblioteca João Paulo II, da Universidade Católica, estava fechada... Sim, criei o hábito de estudar em bibliotecas, porque nos poupam 75% do trabalho, que é fugir de todos os elementos que nos distraem. Costumava estudar também na Biblioteca da Penha de França e na das Galveias. Muito importante também, foi a sala de estudos Castro Mendes, na Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa, nas últimas semanas de meu curso. Mas, com as bibliotecas encerradas, o que fazer?
Então vinham o Joe Satriani, o Marty Friedman e o Steve Vai me ajudar. Ouvindo estes três óptimos músicos acabei encontrando uma receita de concentração. Uma receita estranha, admito.
Eu já os conhecia e já tinha tido bons resultados com eles. Lembro-me do Vai me ajudar imenso na disciplina de Contratos Civis. Olho para o livro, do Professor Pedro Romano Martinez e recordo logo. Estava de "férias", para estudar para os exames dos primeiros dias de janeiro. Sem biblioteca e com espírito natalício em todo o lado. Então o Ultra Zone, que me ofereceu um grande amigo meu, tocava na minha aparelhagem e eu reunia capacidade para estudar. Assim aprendi Empreitada, Arrendamento e Compra e Venda. E aprendi bem. Melhor que o costume até.
O Marty Friedman, por seu turno, lembra-me Direito Administrativo e Fiscal! É uma perspectiva engraçada e, de certeza, ele nem imagina. Inspirar alunos a estudar matérias relacionadas com a Administração Pública...
Quanto ao Joe Satriani, não sei, mas sei que colaborou muito nos meus trabalhos de casa para a minha especialização em Fiscalidade. E, neste momento, é ele que estou ouvindo.
Para agradecer a ajuda preciosa, venho divulgar as páginas da internet de dois génios, o Steve e o Joe. Basta clicar nos nomes.
Tive o prazer de os ver ao vivo, tocando. O Steve, na Aula Magna. O Joe, no Estádio do Restelo. Um melhor que o outro. O do Steve, porém, num sítio menor e sem a necessidade de ouvir AC/DC, a seguir, ficou num lugar de maior conforto em minha memória.
E o show do Steve teve um momento espectacular. Ele estava no meio de um solo lindo e toda a Aula Magna (repleta de gente, uma surpresa) se lembrou de bater palmas. E assim ficamos, uns dois ou três minutos, até que ele parou de tocar, olhou para a plateia e se curvou o quanto pode, com imensa humildade e agradecimento. Nunca tinha visto nada assim! Só pararam os aplausos ao fim de algum tempo, por insistência dele. No fim do show estava toda a gente fascinada, com tudo. Foi como se tivéssemos assistido a uma aparição de uma figura mítica e inatingível. O que até deve ser verdade.
Foi maravilhoso!
E acabei o curso entretanto.

sábado, 18 de outubro de 2003

Só faltava essa

Não gosto, nem tenho alguma preferência por determinada operadora de telemóveis.
Sou inscrito e explorado por uma, como toda a gente. Poucos são os que não tem o seu telemóvel e nada vale ter um, se este não tem uma "rede" que o permita comunicar.
Não tenho especial simpatia, portanto, pela minha operadora. Mas acho que preciso dela. Pelo menos, já fui convencido disso pelos mass media.
Mas, devo confessar, que, apesar dela me tirar dinheiro e fingir que me "oferece" coisas que valem o que eu pago, a minha operadora ainda não começou a me chamar de "Generation Dãh".
E sinto-me muito contente com isto. Aliás, era só o que faltava!
Ora, "Generation Dãh"!
Que raio de ideia vem a ser esta!?
Nunca engoli, nem vou, nem tenho, de achar piada a um anúncio como o "Generation Dãh". Chocou-me desde o princípio. Se fizesse parte desta operadora tinha uma bela oportunidade para a deixar.
A mesma operadora tinha aquele anúncio do "Segue o que sentes...".
O que isso significa nunca se explicou. Acho que o significado era agarrarmos no telemóvel sempre que nos desse vontade e desatássemos a ligar, sem darmos atenção às tarifas exorbitantes que são praticadas. E também se aproveitava a ocasião para irmos à internet pelo telemóvel, para descobrirmos serviços e produtos, como se todos vivêssemos num deserto de informações e dependêssemos do telemóvel para obter todo o tipo de conhecimento. E também tirarí­amos fotografias e enviarí­amos para os nossos amigos, ignorando o preço da transmissão de dados.
Afinal, até acho que os dois anúncios estão relacionados.
Primeiro, uma pessoa "segue o que sente" , sem se preocupar com os preços. Depois, a operadora, surpreendida, porque a ideia até pegou, manda a factura, com o recado: "és mesmo um grande generation dãh". E divulga para todos, numa campanha nacional: "Vejam como há gente Dãh!".
São os tempos modernos.

domingo, 12 de outubro de 2003

Sábados e Domingos

Hoje resolvi escrever sobre um assunto mais leve, tentando passar ao lado de tudo o que se passou nesta semana. Vou fingir que não ouvi o Durão Barroso no Parlamento, todo aflito com o que lhe foi posto à consideração. A tentação é grande, mas queria falar sobre um assunto que me desse muito gosto em partilhar com o meu blog.
Vou para um âmbito de enorme subjectividade. Admito que nem todos pensem como eu, no entanto, o egoísmo dos blogs permite que façamos este tipo de dissertações sem que sejamos interrompidos. Porém, cabe lembrar o link, ali à direita, que diz "fale com a aldeia" e que faculta às pessoas o acesso ao correio electrónico da Aldeia.
Que introdução tão enorme!
O assunto é: que bom que a Expo 98 deixou-nos aquele maravilhoso espaço ao pé do rio.
É impressionante esta "nova" Lisboa ter surgido, como que por milagre. Eu não me lembro do que estava lá anteriormente, devo ter passado algumas vezes, mas não as suficientes para a retina me deixar guardado na memória esta informação. Sei, porque ouvi falar, que antes estavam lá, activadas ou não, indústrias pesadas e fábricas.
Certo é que hoje em dia Lisboa possui esta linda herança da Expo.
E o mais fantástico é aquele rio que parece que nunca mais acaba. Eu sei que o rio já lá estava, mas este se valoriza, consoante o sítio a partir do qual observamos. Vários sábados e domingos já peguei nas minhas pernas e fui olhar o para o rio, nem que seja por dez minutos. É verdade, não é trova (como se diz muito no Rio Grande do Sul). Faço isto já pelo menos há dois anos. Provavelmente duas vezes por mês, em média. Chego pelo Centro Comercial, passo por aquelas árvores altas, que apenas conversam com o vento, vou até ao rio e viro à esquerda. Além da beleza do rio, há uns jardins muito bonitos. Sei que tudo deve ter um nome, mas nunca me interessei. Não sei o nome de nenhum café ou restaurante ali, porque só presto atenção ao rio, aos jardins e à música dos meus fones.
Estarei cometendo uma injustiça, se não referir o Oceanário e a Ponte Vasco da Gama, duas obras que, cada uma a seu modo e a seu lado, fazem o espaço ainda mais encantador.
Por vezes fico um pouco mais tempo, lendo um livro. Aliás, os meus acompanhantes são apenas os livros ou os jornais, sendo que muitas vezes eles não saem de minha mochila, limitando-me eu a olhar a paisagem - interpretada num sentido muito restrito de rio e jardins.
Uma vez fui lá com um caderno e uma caneta, escrevi meia dúzia de páginas. Foi engraçado. Ficavam pessoas a olhar para mim, como se eu fosse um extraterrestre. As canetas e os cadernos, felizmente, são objectos suficientemente vulgares, para as pessoas os considerarem atraentes.
Como não quero manchar a conversa, não vou me estender no desabafo de quanto me preocupa a possibilidade do lobbie do betão tomar conta daquilo tudo. Nem quero lembrar se o Tejo podia estar mais ou menos asseado.
É bom e pronto.
Além disso tudo, não sei porquê, esta zona de Lisboa me lembra muito Porto Alegre. Não sei porque mesmo, porque não me recordo de nenhum lugar em Porto Alegre que seja parecido. Enfim devem ser "razões que a razão desconhece". Não sei se é por ser um espaço amplo... Fico aqui a pensar, mas não encontro motivo. Mas não importa.
Interessante eu pensar que se parece com Porto Alegre, porque logo que eu cheguei em Lisboa, tinha eu onze anos, achei que esta era uma cidade muito muito (a repetição é propositada) triste.
Por outro lado, a beira do rio, que está muito bem arranjada, com alguns miradouros, é um local privilegiado para os "pombinhos" namorarem. Eu, por minha parte, sempre fui lá sozinho e não sei se alguma vez levarei mais do que meus livros...
Não vá o rio ficar com ciúmes...

quarta-feira, 8 de outubro de 2003

Saudades do Manel

Não me leves a mal, se leres, mas tenho de contar a tua história, até porque já estou com saudades tuas. Troquei o teu nome e tudo.
O meu grande amigo Manel veio para Portugal há alguns anos, penso que já lá vão sete ou oito.
Ele veio dos Estados Unidos e era um canadiano filho de portugueses.
O Manel era um aluno e trabalhador exemplar. Passava as férias na Califórnia, para ganhar o dinheiro que ia gastar na Universidade e nas suas despesas pessoais durante um ano (!) em Portugal.
E todos os anos assim acontecia.
Era impressionante a maneira como ele vivia a Faculdade de Direito. Mais do que qualquer um dos alunos do nosso grupo. O gajo vibrava com aquilo tudo.
E assim foram passando os anos...
Não posso deixar de dizer que este ilustre senhor me apresentou uma terra espectacular, aonde ele tem família e onde ele passava todos os fins de semana. A Nazaré. Não, não é a Nazaré de Jesus, mas sim a Nazaré portuguesa, que aliás deve ser melhor e mais bonita que a de Jesus. E Jesus também andou por aqui, ou a mãe dele, conforme disse a toda a gente o Dom Fuas Roupinho. Bela terra Nazaré, com os seus "quartos, rooms, chambres, ..." para arrendar. Só indo lá para entender o significado desta expressão "quartos, rooms, chambres". Êta lugarzinho bom!
Volto ao Manel, pois não posso me perder pelas ruas da Nazaré, com os seus carapaus a secar ao sol. Carapau seco! O Manel contou-me que montes de emigrantes levam os carapaus na bagagem para terem o prazer de os saborearem longe de sua terra, com gosto de saudade (acrescento eu).
Mas o Manel então concluiu o curso, com uma média boa. E arranjou logo um estágio, aonde ganhava mais ou menos bem, para um advogado-estagiário.
Além disso, ele fez uma pós-graduação na qual teve excelentes notas.
Porém, o Manel, aqui, como trabalhador qualificado, recebia menos do que recebia nos Estados Unidos, fazendo os seus serviços de mecânico.
E lá, ainda tinha tempo de tocar a sua guitarra e estar com os seus amigos.
Por isso, ele resolveu atirar tudo para o ar e voltar para o seu país (que ele vai dizer que não é o dele).
Eu fiz força para que ele ficasse, um pouco egoísticamente, eu sei. Mas eu gostava muito dele, o que fazer?
No entanto, não é aqui que quero chegar.
Quero chegar é no seguinte ponto: como pode um país desaproveitar um profissional com capacidades acima da média dos estudantes? Como não se criam condições para que fiquem em Portugal?
E com isso relaciono aquela questão, que felizmente ficou às claras nesta semana, graças ao nosso Ministro Martins da Cruz e sua filha. E é em todo o lugar assim, no país das cunhas e dos clientelismos.
Afinal é mesmo verdade a história dos filhos e enteados.
E podem ter a certeza que o Manel faz falta ao mundo jurídico português.
Não tenho dúvidas nenhumas disso.